fazer casa
uma das missões da vida
uma das missões que temos na vida é fazer casa(s). encontrá-la(s). montá-la(s). mantê-la(s). falo isso como alguém com sangue cigano. com experiência cigana. com pais, avós, bisavós que se moveram ao longo da vida, vamos dizer assim, com alegria ainda que por cima da necessidade. meus pais ontem me ligaram para falar que vão mudar de estado. novamente. e falaram isso animadões. eu ri. chega a ser engraçado como eles gostam de caminhar pelo mundo. será que eles ainda não conseguiram se sentir em casa? ou será que se movem para revitalizar a vida?
estou com 41 anos, quase 42. hoje posso dizer também animadona que fiz casa. uma improvável. não é uma casa no peito de ninguém. junto com ninguém. não é uma casa na terra que nasci. é longe. no alto da montanha. é lá que depois de andar por muitos apartamentos e cidades posso dizer: é aqui que eu moro.
hoje quando perguntam onde você mora, eu digo: São Francisco Xavier. tenho um pouso em São Paulo, sim, por conta do meu trabalho e dos meus filhos mais velhos que estudam na cidade mas minha casa mesmo é em São Chico lá naquela estrada que sobe sobe sobe sem fim até chegar na estrada de terra apertada pela floresta, na “rua” cheia de flores que virando à direita dá na minha casa.
é lá nesse canto com barulho de queda dágua onde tenho muitas companhias de bichos não-humanos que meu sistema nervoso encontra paz.
não foi algo que eu elaborei ou decidi inteiramente a partir de um eu racional. aliás fazer casa lá é algo contra qualquer argumento inteiramente lógico. é longe, demanda disposição e cuidado, custa dinheiro e esforço, me coloca num lugar de solidão (o que as pessoas tem pavor). mas ao contrário do que qualquer argumento racional possa enfatizar, é lá que eu me sinto em casa e essa sensação é algo literalmente impagável. não vai ter pílula mágica capaz de mimetizar essa sensação maravilhosa de: ESSE É O MEU LUGAR!!!!
sim, esse é meu lugar. não vou dizer que é um privilégio, porque não é. é fruto de muito trabalho, persistência e contra-feitiços partiarcais. fazer/ter casa sendo uma mulher (racializada) tem toda uma dimensão simbólica, emocional, sistêmica fodida. desculpa o palavreado mas é como fazer o infazível haha. ninguém ajuda. nem a história, nem o sistema, nem a família, nem o amor romântico, nem os sonhos infantis, nem os relacionamentos. é um puta trabalho que só sai com intenção inabalável. mesmo praquelas que tem o dinheiro para fazer isso com menos dificuldades.
já mentorei muitas mulheres e esse tema da casa nos une. especialmente agora que muitas de nós decidiram experimentar navegar no mundo solas e sem filhos ou nesse rompimento das histórias que vieram antes de nós.
a primeira vez que toquei esse tema foi ainda na infância. meu pai, um cara sim super machista (desculpa, pai, mas a gente sabe que é verdade!), em meio às suas contradições, sabe-se lá porquê me incentivou a pensar diferente. lembro da gente no chão conversando e ele dizer pra mim: você não precisa se casar se não quiser, pode ser independente. eu devia ter uns 10 anos. não sabia o que era ser independente. mas de alguma forma aquilo soou bonito e livre nos meus ouvidos. independente. quero isso.
ao contrário das minhas amigas do colégio, eu não era incentivada pela pessoa que eu mais amava na infância a performar feminilidade. a bem verdade até os 13 anos eu era quase um mogli, o menino lobo, sabe? haha minha mãe e avós ficavam loucas. eu não gostava de pentear cabelo, nem de me vestir, nem de arrumar, nem de brincar de princesa. gostava mesmo era de estar com o meu pai correndo, andando de bicicleta, empinando pipa, brincando de fazer coisas. em vários momentos aquilo me deixava confusa. porque essa experiência e o incentivo dele produziu em mim coragem, segurança, firmeza e um espírito de liderança e de que eu podia fazer as coisas. criá-las e construí-las. ao contrário do que eu via na escola as meninas-princesas que esperavam que alguém fizesse por elas.
depois que eu adolesci tudo mudou obviamente e a experiência com meu pai se desfez. até ali a gente podia ‘fingir’ que eu era um menino, depois que meu corpo virou mulher isso já não era possível. nos afastamos e eu usei o que aprendi com ele como adubo pro que eu viria a ser. demorei a entender essa ruptura entre nós mas sou muita grata por ele ter me dado a chance de não obedecer aos padrões binários de gênero pelo menos na infância.
hoje minhe filhe de 16 anos é uma pessoa agender e eu sei que a gente deve a construção dessa experiência positiva também ao avô delu que me preparou para ser mãe de alguém que não se identifica nem com o gênero feminino nem masculino e que dança belísssimamente enquanto constrói terceiras vias. elu tem uma força para sustentar isso na escola que eu jamais teria. orgulho demais.
bom, acho que esse texto tá se encaminhando organicamente para caminhos múltiplos e aquilo que começou como casa virou corpo dançante no mundo novamente haha. mesmo sem fim foi me encaminhar para ele. hoje fico por aqui. nos vemos semana que vem. a propósito, eu falo da minha casa, sentada embaixo de duas araucárias enormes que guardam essa terra. inclusive, a gente elas chama de duas irmãs. estou aqui sob as suas bênçãos agradecendo por ter e fazer casa nesse território que me abraçou. escrever pra vocês a partir desse lugar tem outro sabor, mesmo. até nisso nossa casa ajuda :)
beijos.
lua


Lua,
Entrei no deságüe, e odeio escrever quando sinto que meu rio encontra demais o do outro. Odeio odiar também, mas sinto que é o caminho pra criar o que preciso, não o ódio, mas a birra. Eu chamo de "birra de mudança" haha
Tem dias que digo a mim mesma: "hoje eu não quero a sabedoria", mas vejo que só ela me leva adiante.
Te escrevo porque te li, e confesso que do meio pro fim já não era tão em estado de presença, mas meus olhos seguiram chorando e você no final me levou pros lugares certos.
A questão é: hoje chorei por me sentir sem casa, meu corpo que nesse momento de fato é o espaço ao qual pertenço me levou até seu texto sobre a casa que você criou. E me vejo criando, mas mulher, como que você consegue lidar com toda essa solidão? Eu sei que não é minha, que não é fato e ai sigo sabendo. Mas isso vai me afastando do que tô sentindo. E o que sinto mesmo é que depois do choro e da escrita sempre vem o alívio, a vida me mostrando que tudo já foi refeito, mas ando passando por dias onde me sinto cansada de tanto refazer.
Mas, também já nem quero estar mais onde estava, doideira, né? Só águas passageiras, me mostrando o caminho.
Obrigada por existir! E se eu pudesse dar um presente a sua casa te daria um grande abraço, que é pra que a minha casa corpo nunca se esqueça que estar em casa é ter espaço onde compartilhar. No fim tô em casa! 💖🫀
Sabe aquela música Vilarejo da Marisa Monte? Estou em busca do meu vilarejo ... para andar e voar! Obrigada por compartilhar sua jornada na busca do seu Vilarejo. Bjs