Como você lida com a solidão?
em resposta a um comentário no último texto
vou começar dizendo que sempre tive medo da solidão, como a maior parte das pessoas. e ao mesmo tempo sempre me senti atraída por ela. esse texto será um pouco controverso devo adiantar.
eu adoro e odeio. com essa intensidade. desde sempre.
quando criança costumava me trancar dentro de armários aleatórios, me esconder dentro e embaixo de coisas, gostava tanto de estar só quanto do escuro. essas duas coisas me intrigavam, me fazem as desejar e repelir com a mesma intensidade. a sensação de estar dentro de algo sozinha me relaxava. hoje penso que talvez tenha alguma relação inconsciente com o útero da minha mãe. e com toda certeza com a minha alta sensibilidade aos estímulos.
como nunca me dei bem com excesso de barulho, de informações simultâneas, de emoções intensas demais, me esconder era uma prática de saúde. leia-se aqui que excesso para mim é uma coisa e para você é outra. eu tenho uma tolerância bem baixa a eles de maneira geral. por isso qualquer oportunidade de subir numa árvore, me enfiar num guarda-roupa, me esconder embaixo da cama, lá eu estava. aprendi a me regular intuitivamente. quando a coisa pegava ou quando eu queria criar livremente, ninguém me achava. minha mãe e minha avó diziam que eu era bicho do mato. e eu adoro essa ideia, eu, bicho do mato :)
adulta eu pratico isso me retirando e me acolhendo com algum tipo de distanciamento. uso fones de ouvido com cancelamento de ruídos, os livros são grandes amigos, gosto de práticas corporais como o ioga que me permitem conectar comigo mesma em solitude, de tempos em tempos preciso me afastar da cidade para me regular, não costumo ir a festas e shows só aqueles de artistas que gosto muito. não bebo. a natureza é uma medicina para mim. e não é num nível filosófico apenas. mas corporal.
então parte da minha relação com a solidão vem dessa necessidade de me regular ainda na infância. junto com isso, não sei se irmã gêmea dessa sensibilidade, tem a imaginação. enquanto eu estava lá trancadinha no armário relaxando, minha cabeça viajava o mundo inteiro. imaginava histórias, personagens, vidas paralelas, brincadeiras, amores platônicos. e era delicioso. nem um pouco sofrido como pode parecer: tadinha, vivia sozinha! não, eu gostava demais!
pesquisando e lendo mulheres ao longo da vida, descobri que muitas de nós são movidas por esse relacionamento com a solidão ou produziram verdadeiras obras de arte a partir do sofrimento gerado por ela.
Emily Dickinson, por exemplo, a poeta norte-americana, assim como eu fez da solidão, da interioridade, seu território, seu cosmos, seu espaço de criação de mundos. Ela tem um poema que começa assim:
The Soul selects her own society
Then shuts the door
To her divine majority
Present no more
A alma escolhe sua própria companhia
E então fecha a porta
Para sua maioria divina
Presente não está mais.
Joan Didion por outro lado traz para a solidão um tom existencial, trágico, de perda. especialmente em seu livro o Ano do Pensamento Mágico, em que aborda a morte do companheiro e o ano que a seguiu.
Maya Angelou também toca no tema da solidão mas enquanto trauma, fruto do racismo. Annie Ernaux nos convida a outra faceta da solidão, a solidão de classe, a solidão intelectual. Mas todas cada uma a sua maneira, para mim, falam sobre a solidão da mulher, em tempos, contextos e condições diversas. Cada uma dando forma e sua própria elaboração a esse que é um tema que nos une.
a lista de grandes mulheres escritoras que se dedicaram a falar sobre essa condição que é humana, sim, mas que tem camadas próprias da condição mulher vai longe. bell hooks, Silvia Plath, Elena Ferrante, Hilda Hilst, Virginia Woolf. Aprendo demais a lidar com o medo da solidão as lendo. primeiro, tirando essa tema do altar do tabu. Falar da solidão é preciso. vivemos um período onde as pessoas adoecem perdidas em meio a uma solidão nada saudável e vejo tão pouca gente falando sobre esse tema a partir de um lugar de encontro.
comecei esse texto falando sobre o meu encanto e conforto em relação a ausência do outro na minha infância e como me regulo mais facilmente nessa condição. mas devo dizer também que ao entrar na adolescência, esse cenário mudou completamente. do prazer absoluto da solitude e da completude mesmo em sua presença, comecei a me debater com a necessidade de criar vínculos. alguém que se acostuma a ficar só tem certa dificuldade com as habilidades necessárias para se manter na presença do outro. e a sensação de não caber nos formatos relacionais construídos, nessa idade, começou a me dar a sensação de não ser aceita. e isso mudou tudo.
passei a ver a solidão como um problema, a lutar contra ela. e daí em diante, aquele espaço de conforto e relaxamento ganhou uma nova camada: eu devo ser muito esquisita, devo ter algum problema. lá se vão 25 anos, crises de pânico fruto da necessidade de ser aceita, um bocado de terapia e vida muita vida para me mostrar que SIM ESTÁ TUDO BEM FICAR SÓ quando isso me faz bem. essa não é uma condição definitiva. posso modular. modelar. posso criar minha própria vida. e depois de dois casamentos e um quase sei que homem nenhum é garantia de boa companhia. não que meus ex não tenham sido. fui casada por 13 anos e isso quer dizer que sim a gente foi feliz um na companhia do outro. sei que minhas amigas e família por mais amorosas que sejam não vão suprir minhas necessidades mais profundas. eu sou a pessoa responsável pelo meu mundo interior e eu não conheço outra forma de acessá-lo sem estar só.
E a propósito, meus filhos estão sempre por perto mas não gosto da ideia de colocar sobre eles a responsabilidade de me fazer sentir mais ou menos solitária. essa é uma responsabilidade minha. mas esse é um assunto para outro artigo.
beijos,
Lua




Lua,
me sinto lendo uma receita de bolo (por me fazer pensar na quantidade de gente que teve que fazer o caminho pra gente fazer da maneira que faz) e penso na quantidade de bolos que já fiz duvidando se tinha mesmo a receita, todos saíram ótimos, mas penso que eu nunca tentei bolo de cenoura porque minha vó dizia que era difícil de acertar, os dela saiam todos cru (eu amava haha), os da minha mãe saiam melhores, penso no que pode vir se eu tentar.
Te ler me alivia o medo de ser grande e generosa, como se o medo da solidão às vezes viesse desse lugar, do medo de me tornar tão dona do meu próprio espaço que ele seja rejeitado por outros lugares.
Acho que das partes que íntegro da minha própria adolescência, me vem como é exatamente sendo do meu tamanho e transitando entre grupos e companhias que vejo algo dizer "a gente gosta da forma como você se pertence", e por incrível que pareça, é estranho, e às vezes difícil mesmo de sustentar.
A primeira coisa que me veio quando te li foi de ir correndo assistir Hilda, não sei se você já assistiu, mas eu amo a forma como a Hilda imagina, brinca e lida bem com os seres encantados que a cercam, só que ela vai viver na cidade e daí tem que lidar com outras coisas.
Obrigada pelas contradições, pela generosidade e por servir uma ótima receita de bolo hahaha um dia comemos um bem bom acompanhado de um cházinho.