A Outra Margem
Um tempo fora da mente que produz e avalia.
Existe um estado no zen chamado mushin que fala sobre a mente sem conteúdo fixo. Não exatamente ausência de pensamento, mas algo mais sutil: vazio de resistência à experiência. Os pensamentos chegam, as sensações chegam, e há um espaço que os recebe sem se contrair. Uma presença que não tenta segurar nem empurrar.
Heidegger falava sobre algo semelhante: Gelassenheit, o deixar-ser. Uma forma ativa de não forçar. Sair da lógica em que tudo precisa ser produzido, resolvido, extraído, consumido. Ele via nessa lógica, o que chamava de Gestell, a estrutura técnica que trata o mundo inteiro como recurso, a enfermidade fundamental da modernidade. Não uma crise política ou econômica. Uma crise de relacionamento com a existência.
No Yoga a gente também pratica essa passividade ativa. Que é um estado que pode ser sentido no corpo mas é, na verdade, um estado de mente.
O filósofo Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, escreve que vivemos numa cultura de positividade excessiva, não no sentido de otimismo, mas no sentido de tudo que exige produção, performance, realização. Uma cultura que não suporta o negativo: o silêncio, a espera, o vazio. O resultado é um tipo de esgotamento que ele distingue do cansaço físico. Não é o cansaço de quem trabalhou muito, é o cansaço de quem nunca parou de se produzir.
A cura, para Han, está naquilo que ele chama de vida contemplativa. Não como escapismo ou luxo espiritual, mas como condição para que o pensamento e a existência possam se renovar.
Simone Weil vai numa direção parecida quando fala sobre atenção. Para ela, atenção verdadeira não é um esforço de concentração. É um esvaziamento de si mesma, uma suspensão do próprio desejo de compreender, para que a realidade possa chegar até você sem ser imediatamente filtrada pela sua interpretação. Ela dizia que essa atenção era a forma mais pura de generosidade: você se torna um espaço onde o outro e o mundo podem ser visto de verdade.
Eu conecto isso à prece e ao tapete de yoga. A meditação. A qualquer prática que te pede para permanecer quando o impulso seria ir embora de si mesmo ou da sala.
Dōgen, o monge zen do século XIII que fundou a escola Sōtō no Japão, ensinava algo chamado shikantaza, simplesmente sentar. Não meditar para alcançar iluminação. Não praticar para algum resultado. A prática e o objetivo são a mesma coisa.
Isso tensiona a lógica que nos governa. Estamos acostumados a tratar tudo como meio para algum fim. O trabalho existe pelo dinheiro. O dinheiro pela segurança. A segurança pela felicidade. A felicidade... por quê mesmo? Em algum ponto a cadeia se revela circular, ou simplesmente vazia.
O que Dōgen propõe é uma relação diferente com o agora. Não como etapa, mas como totalidade.
Essas tradições — zen, taoísmo, yoga, fenomenologia — chegam de contextos radicalmente diferentes e apontam para a mesma direção: existe um modo de existir no mundo que não é baseado em conquista, e esse modo não é fraqueza. É uma forma de inteligência que a nossa cultura sistematicamente destrói e que o corpo ainda guarda.
É por isso que o yoga é uma porta tão particular pra mim. Porque me ensina sobre o contato com a experiência de forma direta, sem mediação conceitual. Você não pensa sobre o presente. A respiração não é uma metáfora. É o que está acontecendo agora.
Numa postura restaurativa, quando o corpo finalmente cede , não por vontade, mas porque não tem mais como não ceder, acontece uma espécie de retorno. Como se você tivesse estado longe de si mesma por muito tempo, e por um instante, sem aviso, estivesse aqui.
É disso que A Outra Margem é feita. De um tempo fora da mente que produz e avalia. De um tempo disponível para nos relacionarmos com a experiência sem querer resolvê-la.
Não estou te prometendo uma transformação em três dias. Não existe lista de entregas. O que proponho é uma artesania do cuidado — cada detalhe pensado, cada silêncio intencional, cada prática escolhida para criar condições de abertura. O que nasce dentro disso é seu, e só você vai saber o que é.
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